
O punho cerrado da mão esquerda, símbolo da luta contra o racismo e dos Panteras Negras, reaparece na bandeira do
Otpor [Resistência], com a mão direita…

…e se repete no símbolo do movimento global da juventude, que juntou Departamento de Estado, Google e Facebook:
Política na Era Digital: Tentando controlar a explosão demográfica
por
Luiz Carlos Azenha
A
História dos Estados Unidos se confunde com a História das intervenções
de Washington para conquistar territórios, trocar ou debilitar regimes
ou provocar mudanças que beneficiem os interesses políticos, econômicos
ou diplomáticos do império. Isso está fartamente documentado.
Por exemplo, no livro
Killing Hope: US military and CIA interventions Since World War II,
que descreve as intervenções clandestinas ou abertas promovidas pelo
governo norte-americano desde a Segunda Guerra Mundial. Nós mesmos já
experimentamos isso, em 1964.
Nos anos 80, quando o conservador Ronald Reagan ocupava a Casa
Branca, apoiava governos direitistas ou grupos guerrilheiros que
combatiam regimes de esquerda na Nicarágua, El Salvador, Honduras e
Guatemala.
Foram guerras brutais na América Central. Através do
tenente coronel Oliver North, a Casa Branca fez um arranjo pelo qual
vendia armas clandestinamente ao governo do Irã, que sofria um boicote
internacional — liderado pelos Estados Unidos! — e usava o dinheiro para
financiar os contras, que combatiam o governo de esquerda da Nicarágua.
Descoberto o escândalo, o esquema implodiu.
Espertamente, Reagan redesenhou a iniciativa, para atender também aos
democratas e garantir dinheiro do Congresso, que estava reticente no
financiamento a ações clandestinas da CIA desde a guerra do Vietnã.
Formou-se o
National Endowement for Democracy, NED, que passou a transferir dinheiro público para institutos ligados ao
Partido Republicano, ao
Partido Democrata, à
maior central sindical dos Estados Unidos e
ao empresariado.
Foi a forma de garantir amplo apoio, nos Estados Unidos, à ideia de
“promover a democracia” adequada, ou seja, a democracia que atendesse
aos interesses estratégicos de Washington. A estes institutos se
juntaram muitos outros, com destaque para a
Freedom House e a
Open Society, do especulador George Soros.
Formou-se, assim, uma ampla rede horizontal e não hierarquizada de
entidades sediadas em Washington, que recebe financiamento público ou de
empresas e milionários, para promover no mundo as ideias da privataria.
Uma rede que é a fachada pública do aparato clandestino de mudança de
regime, que se apoia na CIA e no Pentágono.
Esse aparato atuou, por exemplo, na série de revoluções coloridas do
Leste Europeu e, mais recentemente, na Bolívia, Venezuela e Irã, além de
incentivar grupos que participaram da dita Primavera Árabe, desde a
Tunísia até o Egito. O objetivo não é apenas derrubar governos, mas
fragilizar regimes e torná-los incapazes de levar adiante reivindicações
nacionalistas; assim, ficam mais vulneráveis à pressão externa.
As mudanças no Egito, por exemplo, preservaram o essencial: uma
política econômica neoliberal, dependência de financiamento dos Estados
Unidos e não ruptura dos acordos de paz com Israel.
Em sua
encarnação do Leste Europeu, as “revoluções coloridas” tinham tido
algumas características bem definidas: slogans e imagens de fácil
entendimento, mobilização da juventude através de redes sociais,
tentativa de unificar grupos de oposição e ações de desobediência civil
nas ruas. Foi assim, também, na Primavera Árabe.
Obviamente, os movimentos não teriam tido sucesso se não existissem
condições políticas e sociais para tanto: desemprego, ausência de
serviços públicos e uma demografia favorável (grande número de jovens
descontentes). Diante de um quadro de mudança inevitável, por que não
aproveitar e influir nela?
Mais recentemente, a este esforço por mudanças pró-Estados Unidos se
juntaram as principais empresas do mundo digital. Antes, uma explicação
se faz necessária.
[Contribua para a sobrevivência do Viomundo, aqui]
Durante
seus dois mandatos, o republicano George W. Bush tirou crescentemente o
poder da diplomacia do Departamento de Estado e transferiu atribuições
para o Pentágono. O sucessor dele, Barack Obama, restaurou parcialmente o
equilíbrio, com nova ênfase no soft power dos diplomatas e das ações
não clandestinas.
Foi neste contexto que a secretária de Estado Hillary Clinton apoiou com entusiasmo, em 2008, a formação da
AYM, a aliança dos movimentos da juventude,
um movimento internacional de ativistas pela democracia e os direitos
humanos. A ideia de formar o grupo mobilizou, entre outros, um
ex-assessor de Hillary e de sua antecessora, Condoleezza Rice, Jared
Cohen, diretor do Google.
Cohen é co-autor do livro
The New Digital Age: Re-shaping the
Future of People, Nations and Business [A Nova Era Digital:
Redesenhando o Futuro das Pessoas, Nações e Negócios]. Além de
combater regimes supostamente opressivos, diz-se guru no enfrentamento
da “radicalização”, palavra-chave que nos Estados Unidos remete aos
movimentos de esquerda.
A segunda conferência internacional do grupo que ele ajudou a fundar, em 2009,
na Cidade do México, foi patrocinada pela Causecast.org, Facebook, Gen
Next, Google, Hi5, Howcast Media, MTV, MySpace, PepsiCo, Univision
Interactive Media, Inc., Departamento de Estado [dos Estados Unidos],
WordPress.com e YouTube.
Ou seja, todos os pesos pesados do mundo digital em parceria com o governo dos Estados Unidos!
O
objetivo do Movements.org é “promover mudanças sociais positivas
através de ferramentas e tecnologias do século 21″. Mudança positiva?
Um Milhão de Vozes contra as FARC na Colômbia, por exemplo, cujo objetivo é evitar a participação de ex-integrantes das FARC no sistema político colombiano.
Do ponto de vista estratégico, esse conjunto de ações acima descritas
parece refletir a evolução da preocupação dos Estados Unidos com as
mudanças inevitáveis derivadas de uma juventude cujas aspirações não
podem nem vão ser atendidas pelo neoliberalismo. Uma tentativa de
direcionar a energia da chamada “bomba demográfica”. De incentivar,
através das redes sociais e de novas tecnologias, um movimento de jovens
que se contraponha a uma saída pela esquerda: em defesa do
empreendedorismo, da livre iniciativa, contra a cobrança de impostos,
contra o Estado ‘inchado e perdulário’, contra a regulamentação das
corporações e do sistema financeiro e assim por diante.
Como nós mesmos, no Brasil, temos lidado recentemente com uma rebelião da juventude, é importante ficar alerta.
Abaixo, uma reportagem do diário britânico
Guardian, de 2004, sobre as revoluções coloridas. Um texto simpático aos Estados Unidos, mas revelador dos métodos empregados:
Uma campanha dos Estados Unidos por trás da confusão em Kiev
The Guardian, Friday 26 November 2004 00.03 GMT
Com seus sites e colantes, seus golpes publicitários e slogans, cujo
objetivo é acabar com o medo causado por um regime corrupto, os
guerrilheiros da democracia do movimento jovem Pora, da Ucrânia, já
conseguiram uma vitória importante — qualquer que seja o resultado do
impasse em Kiev. A Ucrânia, um país tradicionalmente passivo na
política, foi mobilizada pelos jovens ativistas da democracia e nunca
mais será a mesma. Mas se os ganhos da chamada revolução laranja são da
Ucrânia, a campanha é uma criação dos Estados Unidos, um sofisticado e
brilhante exercício de marketing de massa que, em quatro paises em
quatro anos, foi usado para tentar denunciar eleições fraudadas e
derrubar regimes indesejados.
Financiados e organizados pelo governo dos Estados Unidos, com a ação
de consultores, pesquisadores, diplomatas, apoio de ONGs e dos dois
principais partidos norte-americanos, a campanha foi primeiro usada na
Europa em Belgrado, em 2000, para derrotar Slobodan Milosevic nas urnas.
Richard Miles, embaixador dos Estados Unidos em Belgrado, teve um
papel-chave. No ano passado, já como embaixador dos Estados Unidos em
Tbilisi, repetiu o truque na Georgia treinando Mikhail Saakashvili para a
derrubada de Eduard Shevardnadze.
Dez meses depois de seu sucesso em Belgrado, o embaixador dos Estados
Unidos em Minsk, Michael Kozak, um veterano em operações similares na
América Central, notadamente na Nicarágua, organizou uma campanha
praticamente idêntica para tentar derrubar o homem forte da
Bielorrússia, Alexander Lukashenko.
Mas fracassou. “Não haverá Kostunica na Bielorrússia”, declarou o
presidente do país, se referindo à vitória da campanha em Belgrado. Mas a
experiência ganha na Sérvia, Georgia e Bielorrússia foi valiosa no
planejamento da derrubada de Leonid Kuchma em Kiev.
A operação — promover a democracia através das urnas e de
desobediência civil — foi tão bem desenvolvida que os métodos
amadureceram num projeto dos Estados Unidos para ganhar eleições dos
outros. No centro de Belgrado, existe um escritório cheio de jovens
letrados na internet que se denomina Centro para a Resistência não
Violenta. Se você quer saber como derubar um regime que controla a
mídia, os juizes, os tribunais, o aparato de segurança e as seções
eleitorais, os jovens ativistas de Belgrado podem ser contratados.
Eles emergiram do movimento estudantil anti-Milosevic, Otpor, que
significa resistência. A marca chamativa e de apenas uma palavra é
importante. Na Georgia, no passado, um movimento estudantil equivalente
foi batizado de Khmara. Na Bielorrússia, foi Zubr. Na Ucrânia, é Pora,
que significa “chegou a hora”.
O Otpor também tinha um slogan simples e potente que apareceu em
todos os lugares da Sérvia em 2000 — com as palavras “gotov je”,
significando “está acabado”, numa referência a Milosevic. O logo de um
punho cerrado, em negro, completa o marketing brilhante. Na Ucrânia o
equivalente é um cronômetro, significando que os dias do regime de
Kuchma estão contados. Colantes, pichações e blogs são as armas dos
jovens ativistas. A ironia e a comédia nas ruas servem para desgastar o
regime e foram bem sucedidos na tarefa de acabar com o medo do público.
No ano passado, antes de se tornar presidente da Georgia, o sr.
Saakashvili, educado nos Estados Unidos, viajou de Tbilisi a Belgrado
para ser treinado em técnicas de desobediência civil em massa. Na
Bielorrússia, a embaixada dos Estados Unidos organizou o despacho de
jovens líderes de oposição ao Báltico, onde eles se encontraram com
sérvios que vieram de Belgrado. No caso da Sérvia, dado o ambiente de
hostilidade, os norte-americanos organizaram a derrubada de Milosevic
desde a Hungria — Budapeste e Szeged. Em semanas recentes, vários
sérvios viajaram para a Ucrânia. Um dos líderes de Belgrado, Aleksandar
Maric, foi barrado na fronteira.
O Instituto Nacional Democrata, do Partido Democrata, o Instituto
Internacional Republicano, do Partido Republicano, o Departamento de
Estado e a USAid foram as maiores agências envolvidas na campanha, assim
como a Freedom House e a Open Society do bilionário George Soros.
Empresas de pesquisa de opinião dos Estados Unidos e consultores
profissionais foram contratados para organizar “focus groups” e estudar
dados de eleições anteriores. As oposições, geralmente divididas, foram
unidas sob candidato único para ter chance de derrotar o regime. O líder
é escolhido de forma objetiva e pragmática, mesmo que for
anti-americano. Na Sérvia, os pesquisadores da
Penn, Schoen and Berland Associates* descobriram
que o líder — mais tarde assassinado — da oposição, Zoran Djindjic, não
tinha chance de derrotar Milosevic em eleições livres. Foi persuadido a
abrir mão para o anti-ocidental Vojislav Kostunica, agora primeiro
ministro da Sérvia.
Na Bielorrússia, autoridades dos Estados Unidos deram ordem à
oposição para que se unisse em torno do velho sindicalista Vladimir
Goncharik, que tinha apelo junto aos tradicionais eleitores de
Lukashenko.
Oficialmente, o governo dos Estados Unidos gastou 41
milhões de dólares para organizar e financiar a operação, que durou um
ano, para se livrar de Milosevic, a partir de outubro de 1999.
Na Ucrânia, a quantia é de cerca de 14 milhões de dólares.
Além
do movimento estudantil e de uma oposição unida, outro elemento chave
do projeto é conhecido como “tabulação paralela dos votos”, uma forma de
enfrentar fraudes eleitorais usadas por regimes sem reputação.
Existem monitores profissionais estrangeiros de entidades como a
Organização para Cooperação de Segurança da Europa, mas as eleições
ucranianas, como as de outros paises, também incluiram milhares de
monitores locais treinados e pagos por grupos ocidentais. A Freedom
House e o NDI, do Partido Democrata, ajudaram a financiar e organizar “o
maior monitoramento civil regional de eleições” na Ucrânia, envolvendo
mais de 1000 observadores treinados.
Também organizaram pesquisas de boca de urna. Na noite de domingo
elas deram ao sr. Yushchenko uma vantagem de 11 pontos, definindo a
agenda das próximas horas. As pesquisas de boca de urna são críticas:
permitem à oposição a tomada da iniciativa contra o regime,
invariavelmente aparecem primeiro, recebem grande cobertura da mídia e
deixam às autoridades o ônus de responder.
O estágio final do projeto dos Estados Unidos para mudar regimes diz
respeito a como reagir se o governo tentar roubar a eleição. Na
Bielorrússia, o presidente Lukashenko venceu e a resposta foi mínima. Em
Belgrado, Tbilisi e agora em Kiev, onde inicialmente os governos
tentaram se manter no poder, o conselho era manter a calma mas também a
determinação, com a organização de demonstrações maciças de
desobediência civil, que devem permanecer pacíficas mas podem provocar o
regime a retaliar de forma violenta.
Se os eventos em Kiev validarem as estratégias dos Estados Unidos
para ajudar outros povos a vencer eleições e tomar o poder de regimes
anti-democráticos, é certo que o exercício será repetido em outros
lugares do mundo pós-soviético. Os lugares que devemos olhar agora são a
Moldóvia e outros países autoritários da Ásia central.
PS do Viomundo1: Estas revoluções coloridas levaram a
Rússia a banir o envolvimento de ONGs financiadas pelos Estados Unidos
em ações políticas locais.
PS do Viomundo2: *No referendo revogatório de Hugo Chávez, em 2004, a empresa [
de pesquisas Penn, Schoen & Berland Associates, de Washington]
divulgou em Nova York, quando as urnas ainda estavam abertas na
Venezuela, uma previsão de que Chávez perderia por 59 a 41%. A
legislação venezuelana proibia a divulgação de pesquisas, mas a empresa
burlou a lei divulgando a pesquisa nos Estados Unidos e disseminando o
resultado pela internet na Venezuela. Chávez venceu por 59% a 41%.
Douglas Schoen atribuiu o resultado à “fraude maciça”. Que é justamente o
papel que se esperava dele em uma disputa marcada pela controvérsia:
tirar a legitimidade do resultado. Em 2006, de novo, a empresa cometeu
um erro grosseiro na Venezuela. Em 15 de novembro publicou uma pesquisa
dizendo que Chávez tinha vantagem de 48% a 42% sobre Manuel Rosales [na
eleição presidencial]. Dias antes da votação, Douglas Schoen disse que o
resultado seria apertado. Chávez venceu com quase 63% dos votos (
do meu texto Queimando a Língua com as Pesquisas).
A empresa de pesquisas tinha contratos com o Departamento de Estado
americano, o que talvez ajude explicar os “fenômenos” acima citados.
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