sábado, 5 de fevereiro de 2011

O Egito à beira do sangue

O Egipto à beira do sangue

por Thierry Meyssan [*]
. De há uma semana a esta parte os meios de comunicação ocidentais fazem-se eco das manifestações e da repressão que agitam as grandes cidades egípcias. Traçam um paralelo com as que levaram ao derrube de Zine el-Abidine Ben Ali na Tunísia e evocam um vendaval de revolta no mundo árabe. Segundo eles, este movimento podia estender-se à Líbia e à Síria. Devia favorecer os democratas laicos e não os islamitas, prosseguem eles, porque a influência dos religiosos foi sobrestimada pela administração Bush e o "regime dos molllah" no Irão é um dissuasor. Assim se concretizariam os votos de Barack Obama na Universidade do Cairo:   a democracia reinará no Próximo Oriente.

Esta análise é falsa segundo todas as perspectivas.
  • Primeiro, as manifestações começaram no Egipto já há alguns meses. Os meios de comunicação ocidentais não lhes prestaram atenção porque pensavam que elas não levariam a nada. Os egípcios não foram contaminados pelos tunisinos, mas foram os tunisinos que abriram os olhos dos ocidentais sobre o que se passa naquela região.

  • Em segundo lugar, os tunisinos revoltaram-se contra um governo e uma administração corruptos que foram espoliando gradualmente toda a sociedade, privando de qualquer esperança classes sociais cada vez mais numerosas. A revolta egípcia não é dirigida contra esse modo de exploração, mas contra um governo e uma administração que estão tão ocupados em servir os interesses estrangeiros que já não têm energia para satisfazer as necessidades básicas da sua população. No decurso dos últimos anos, o Egipto assistiu a inúmeros motins, quer contra a colaboração com o sionismo, quer provocados pela fome. Estes dois assuntos estão intimamente ligados. Os manifestantes evocam indistintamente os acordos de Camp David, o bloqueio a Gaza, os direitos do Egipto às águas do Nilo, a partilha do Sudão, a crise de habitação, o desemprego, a injustiça e a pobreza.

    Além disso, a Tunísia era administrada por um regime policial, enquanto que o Egipto é-o por um regime militar. Digo aqui 'administrado' – e não 'governado' – porque em ambos os casos, trata-se de Estados sob uma tutela pós-colonialista, privados de política estrangeira e de defesa independente.

    Segue-se que na Tunísia, o exército pôde interpor-se entre o Povo e a polícia do ditador, enquanto que no Egipto, o problema será resolvido pelo fuzil automático entre militares.

  • Em terceiro lugar, se o que se passa na Tunísia e no Egipto serve de encorajamento para todos os povos oprimidos, estes últimos não são os que os meios de comunicação ocidentais imaginam. Para os jornalistas, os maus são os governos que contestam – ou fingem contestar – a política ocidental. Enquanto que para os povos, os tiranos são os que os exploram e humilham. É por isso que penso que não iremos assistir às mesmas revoltas em Damasco. O governo de Bachar el-Assad é o orgulho dos sírios: alinhou do lado da Resistência e soube preservar os seus interesses nacionais sem nunca ceder às pressões. Acima de tudo, soube proteger o país do destino que Washington lhe reservava: ou o caos à moda iraquiana, ou o despotismo religioso à moda saudita. Claro que é muito contestado em muitos aspectos da sua gestão, mas desenvolve uma burguesia e os procedimentos democráticos que a acompanham. Pelo contrário, estados como a Jordânia e o Iémen são instáveis no que se refere ao mundo árabe, e o contágio também pode atingir a África negra, por exemplo o Senegal.

  • Em quarto lugar, os meios de comunicação ocidentais descobrem tarde demais que o perigo islamista é um espantalho. No entanto é preciso reconhecer que foi activado pelos Estados Unidos de Clinton e pela França de Miterrand nos anos 90 na Argélia, e depois foi exagerado pela administração Bush na sequência dos atentados de 11 de Setembro, e alimentado pelos governos neo-conservadores europeus de Blair, Merkel e Sarkozy.

    Também é preciso reconhecer que não há nada em comum entre o wahhabismo à saudita e a Revolução islâmica de Rouhollah Khomeiny. Qualificá-los a ambos de 'islamitas' não só é absurdo como é impedir que se compreenda o que se está a passar.

    Os Seoud financiaram, de acordo com os Estados Unidos, grupos muçulmanos sectários que defendem o regresso à imagem que têm da sociedade do século VII, no tempo do profeta Maomé. Já não têm mais impacto no mundo árabe do que têm os amish nos Estados Unidos, com as suas carroças puxadas a cavalos.

    A Revolução de Khomeiny não pretende instaurar uma sociedade religiosa perfeita, mas derrubar o sistema de dominação mundial. Afirma que a acção política é um meio para o homem se sacrificar e se transcender e, por conseguinte, que é possível encontrar no Islão a energia necessária à mudança.

    Os povos do Próximo Oriente não querem substituir as ditaduras policiais ou militares que os esmagam por ditaduras religiosas. Não há perigo islamita. Simultaneamente, o ideal revolucionário islâmico que já produziu o Hezbollah na comunidade xiita libanesa, influencia agora o Hamas na comunidade sunita palestina. Pode de facto desempenhar um papel nos movimentos em curso, e já o desempenha no Egipto.

  • Em quinto lugar, por muito que desagrade a certos observadores, apesar de assistirmos a um regresso da questão social, este movimento não pode ser reduzido a uma simples luta de classes. É verdade que as classes dominantes receiam as revoluções populares, mas as coisas são mais complicadas. Assim, sem surpresas, o rei Abdallah da Arábia Saudita telefonou ao presidente Obama para lhe pedir que faça parar a desordem no Egipto e proteja os governos existentes na região, prioritariamente o seu. Mas este mesmo rei Abdallah acaba de favorecer uma mudança de regime no Líbano pela via democrática. Abandonou o multimilionário líbano-saudita Saad Hariri e apoiou a coligação de 8-Março, Hezbollah incluído, para o substituir como primeiro-ministro por um outro multimilionário líbano-saudita Najib Mikati. Hariri tinha sido eleito por parlamentares que representavam 45% do eleitorado, enquanto que Mikati acaba de ser eleito por parlamentares representando 70% do eleitorado. Hariri estava enfeudado a Paris e a Washingtom, Mikati anuncia uma política de apoio à Resistência nacional. A questão da luta contra o projecto sionista é actualmente superdeterminante em relação aos interesses de classe. Além disso, mais do que a distribuição da riqueza, os manifestantes põem em causa o sistema capitalista pseudoliberal imposto pelos sionistas.

  • Em sexto lugar, para voltar ao caso egípcio, os meios de comunicação ocidentais lançaram-se em volta de Mohamed ElBaradei que designaram por líder da oposição. É ridículo. M. ElBaradei é uma personalidade com uma reputação simpática na Europa, porque resistiu algum tempo à administração Bush, sem se lhe opor totalmente. Personifica pois a boa consciência europeia face ao Iraque, que se opunha à guerra e acabou por apoiar a ocupação. No entanto, objectivamente, M. ElBaradei é a água morna que recebeu o Prémio Nobel da Paz para que Hans Blix não o recebesse. É sobretudo uma personalidade sem qualquer eco no seu próprio país. Não existe politicamente a não ser porque a Irmandade Muçulmana o escolheu para seu porta-voz nos meios de comunicação ocidental.

    Os Estados Unidos fabricaram adversários mais representativos, como Ayman Nour, que não tarda muito vai ser tirado do chapéu, apesar de as suas posições a favor do pseudo-liberalismo económico o desqualificarem perante a crise social que o país atravessa.

    Como quer que seja, na realidade, só existem duas organizações de massas, implantadas na população, que há muito se opõem à política actual: a Irmandade Muçulmana, por um lado, e a Igreja cristã copta, por outro lado, (apesar de S.B. Chenoudda III distinguir a política sionista de Mubarak que ele combate, do rais [1] com que se entende). Este ponto escapou aos meios de comunicação ocidentais porque fizeram crer há pouco tempo ao público que os coptas estavam a ser perseguidos pelos muçulmanos quando estavam a ser perseguidos pela ditadura de Mubarak.

    Mubarak e Suleiman. Aqui torna-se útil um parêntesis: Hosni Mubarak acaba de nomear Omar Suleiman para vice-presidente. É um gesto claro que pretende tornar mais difícil a sua eventual eliminação física pelos Estados Unidos. Mubarak chegou a presidente porque tinha sido designado vice-presidente e os Estados Unidos mandaram assassinar o presidente Anuar el-Sadate pelo grupo de Ayman al-Zawahri. Portanto, sempre se recusou até agora a arranjar um vice-presidente com medo de ser assassinado por sua vez. Ao designar o general Suleiman, escolheu um dos seus cúmplices com quem manchou as mãos no sangue de Sadate. A partir de agora, para conquistar o poder, não bastará matar apenas o presidente, será preciso executar também o seu vice-presidente. Ora, Omar Suuleiman é o principal artífice da colaboração com Israel. Washington e Londres vão pois protegê-lo como às meninas dos seus olhos.

    Além do mais, Suleiman pode apoiar-se em Tsahal [2] contra a Casa Branca. Já começou por chamar atiradores de elite e material israelwnses que estão prontos para matar os cabecilhas da multidão.

    O general-presidente Hosni Mubarak e o seu general-vice-presidente Omar Suleiman apareceram na televisão com os seus generais conselheiros para dar a entender que o exército tem o poder e vai mantê-lo.

  • Em sétimo lugar, a situação actual revela as contradições da administração americana. Barack Obama estendeu a mão aos muçulmanos e apelou à democracia aquando do seu discurso na universidade do Cairo. No entanto, agora, vai utilizar todo o seu empenho para impedir eleições democráticas no Egipto. Se pode aceitar um governo legítimo na Tunísia, não pode fazê-lo no Egipto. As eleições beneficiariam a Irmandade Muçulmana e os coptas. Escolheriam um governo que abriria a fronteira de Gaza e libertaria o milhão de pessoas que lá estão encerradas. Os palestinos, apoiados pelos seus vizinhos, o Líbano, a Síria e o Egipto, derrubariam o jugo sionista.

    É preciso assinalar aqui que, no decurso dos dois últimos anos, estrategas israelenses conceberam um golpe retorcido. Considerando que o Egipto é uma bomba social, que a revolução é inevitável e está iminente, conceberam favorecer um golpe de estado militar em benefício de um oficial ambicioso e incompetente. Este lançaria uma guerra contra Israel e seria vencido. Tel-Aviv poderia assim reencontrar o seu prestígio militar e recuperar o monte Sinai e as suas riquezas naturais. Sabe-se que Washington se opôs decididamente a este cenário demasiado difícil de controlar.

    O que é certo é que o Império anglo-saxão se mantém agarrado aos princípios que fixou em 1945: é favorável às democracias que fazem uma 'boa escolha' (a do servilismo), e opõe-se aos povos que fazem a 'má escolha' (a da independência).

    Por conseguinte, se acharem necessário, Washington e Londres apoiarão sem reservas um banho de sangue no Egipto, desde que o militar que levar a melhor se comprometa a perpetuar o statu quo internacional.
31/Janeiro/2011
NT
[1] Rais: título usado pelos dirigentes de estados muçulmanos na Índia, no Médio Oriente e na Ásia do Sul.
[2] Tsahal: nome dado às forças armadas de Israel.

Imagens do Egipto em http://totallycoolpix.com/2011/01/the-egypt-protests/


[*] Analista político francês, presidente-fundador do Réseau Voltaire da conferência Axis for Peace . Publica toda semana crónicas de política estrangeira na imprensa árabe e russa. Última obra publicada: L'Effroyable imposture 2 , éd. JP Bertand (2007).

O original encontra-se em http://www.voltairenet.org/article168311.html . . Tradução de Margarida Ferreira.


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

Eu mesmo entrevistado por uma colega monarquista sobre a agricultura varzeana amazônica pelo MSN.

Roseli - Associada Efetiva diz:
 eu acredito que os governos deixam um pouco a desejar em relação ao seu estado
GERALDO diz:
 aqui é uma oligarquia provinciana
Roseli - Associada Efetiva diz:
 ai tem tudo de bom
GERALDO diz:
 o povo vota nesse mesmo caras
Roseli - Associada Efetiva diz:
 me diga porque eles , industrializam a pesca e vendem aqui p/ o sudeste
 merenda escolar etc
 peixe por aqui e caro
GERALDO diz:
 sobrevivência ao pescado do caboclo interiorano
 a pesca é a unica produção para viver.
Roseli - Associada Efetiva diz:
 sabe limpa congela e coloca a vacuo e vende congelado
GERALDO diz:
 e dar lucro
Roseli - Associada Efetiva diz:
 então dai eles iriam ganhar mais
GERALDO diz:
 certo
 ainda tem a produção rural
Roseli - Associada Efetiva diz:
 pois poderiam fazer cooperativa
GERALDO diz:
 o problema até a gente batalha pela agricultura varzeana
 e cooperativa tb
 é um projeto antigo do ex-senador EVANDRO CARREIRA
Roseli - Associada Efetiva diz:
 esse monte de jacaré matando gente , olha o lucro p/ o povo atravez da carne e do couro
GERALDO diz:
 que eu conheço pessoalmente
Roseli - Associada Efetiva diz:
 o que planta na agricultura varzeana
 arroz
GERALDO diz:
 quando o rios  da amazônia secam o agriculto tem chance pra plantar na terra seca
 e o Estado tem que investir aquele agricultor ribeirinho
Roseli - Associada Efetiva diz:
 a entendi
GERALDO diz:
 pro seu sustento
 mas o Estado infelizmente não faz isto
Roseli - Associada Efetiva diz:
 e
GERALDO diz:
 e o agricultor coitado tem que sofrer as consequ~encias com atravessadores.
Roseli - Associada Efetiva diz:
 eu acredito que alem de plantar p/ si tinham que ganhar dinheiro
GERALDO diz:
 exatamente
Roseli - Associada Efetiva diz:
 e isso que falta ai liderança para dizer a verdade, pois tem braços p/ fazer mas tem medo que não da certo
GERALDO diz:
 exato
Roseli - Associada Efetiva diz:
 ai que judiação
GERALDO diz:
 é a nossa política amazônica é assim mesmo
Roseli - Associada Efetiva diz:
 aqui no sudeste , pelo menos em SP os empresarios  saem em disparada
 mas prescisa mudar
GERALDO diz:
 certo.
Roseli - Associada Efetiva diz:
 por outras cabeças p/ pensar e executar
GERALDO diz:
 sim

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

A crise dos trabalhadores em educação

A crise dos trabalhadores em educação

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Houve um tempo, longo tempo, tempo que cruza os séculos, em que o professor era símbolo de autoridade no pequeno e gigantesco espaço da sala de aula. Note-se que autoridade é um atributo moralmente superior ao poder, mas, quando fosse necessário, a valiosa autoridade do professor, fundada no saber e na conduta, vinha respaldada por poder. Nas últimas quatro décadas, infelizmente, a educação brasileira foi atacada em dois flancos pela esquerda delirante. E tanto a autoridade quanto o valor econômico e social do trabalho dos professores, reconhecidos há milênios em todas as civilizações, desabaram fragorosamente em nosso país.

Por um dos flancos, fustigou-a aquilo que Nelson Rodrigues chamava de Poder Jovem, acolhido entre aplausos por pedagogos de meia tigela como expressão de libertação para a criatividade. Todo poder ao jovem! A maturidade tornou-se um mal e a imaturidade, um bem a ser preservado. Era imprescindível erradicar as formas negativas da pedagogia. Coisas como certo e errado, sim e não, correção com caneta vermelha, entre outras práticas, precisavam ser substituídas por vaporosas sutilezas que não contrariassem os pupilos. Afinal, eles podem ser portadores natos de uma nova e superior forma de saber. Guardo como pérola desse disparate a frase do vate sergipano que adoça com sua voz aveludada os julgamentos do Supremo Tribunal Federal. No caso da reserva Raposa Serra do Sol, ele, o ministro Ayres Britto, em reverência à sabedoria indígena, lascou, citando Paulo Freire: “Não existe saber maior ou menor; existem apenas saberes diferentes”. De fato, o veterano Marco Aurélio Mello e o garoto Dias Toffoli exemplificam saberes diferentes, quantitativamente iguais, não é ministro? E viva Paulo Freire.
 
Pessoalmente ainda estou à espera de que algum desses guris maleducados das universidades brasileiras, depois de tantos anos de sua completa libertação, apresentem alguma contribuição à ciência, à técnica e à cultura nacional. Ao contrário, o que se vê é o país ocupando o 93º lugar no componente educação, entre 169 pesquisados. E não me surpreenderei se encontrar por aí doutos pedagogos convencidos de que o mundo, por pura inveja, se recusa a cair de joelhos diante da qualidade muito peculiar e superior do saber construído por nossos jovens. De minha parte, vejo o sucesso sempre ao alcance dos que queimaram pestana sobre os livros, levaram a sério seus estudos ou cavoucaram com responsabilidade seus espaços na vida pública ou na iniciativa privada, mediante capacidade de renúncia ao bem atual com vistas ao investimento no bem futuro maior. Esses jovens agem no contrafluxo do deslizamento que descrevi, arquitetado por uma escola de viés marxista, que está levando três anos inteiros para alfabetizar uma criança, quando nos meus anos de curso primário se aprendia isso em seis meses de aula. A educação, caro leitor, conceitual e deliberadamente, deixou de lado seus objetivos essenciais e se voltou para formar cidadãos conscientes, politicamente engajados. Enquanto não chegam lá, os cidadãozinhos treinam sua cidadaniazinha desrespeitando e espancando os professores.
 
Pelo outro flanco, e no mesmo tom, os professores politicamente engajados, abdicantes de sua autoridade, assumiram-se como "trabalhadores em educação". O conselheiro tutelar, escolhido em pleito de baixíssimo comparecimento, por força de preceito contra o qual nenhuma voz se ergue com suficiência, exerce mais autoridade nas escolas do que os professores ou os diretores. Estes, a seu turno, são, também eles, eleitos num concurso de promessas e de simpatia, com participação e engajamento dos alunos. No Brasil, amigo leitor, aluno vota para diretor! Vota para reitor de universidade! E ninguém se escandaliza! Por que será que os praças não elegem os comandantes e os pacientes não escolhem os diretores dos hospitais e centros de saúde? Quando o poste passa a desaguar no cachorro e o aluno a meter o dedo na cara do professor, ainda há quem se surpreenda.
 
O Ministério da Educação está veiculando nestes dias um comercial com o objetivo de ampliar o interesse pela carreira do magistério. Mostra uma obviedade: os povos que melhor se desenvolvem atribuem a seus professores o principal mérito por esses bons resultados. É claro que nossos  professores ganham muito pouco, mas os maiores problemas, nesse particular, estão na péssima preparação dos graduados para o magistério e na falta de recursos didáticos nas escolas. De outra parte, veja quais os países bem sucedidos em seus objetivos sociais, com mais elevado Índice de Desenvolvimento Humano, que se reportam prioritariamente a fundamentos marxistas nas salas de aula e na formação de seus educadores. Duvido que encontre algum. A crise dos trabalhadores em educação é uma responsabilidade deles mesmos e das ideias que abraçam. É responsabilidade deles mesmos, como professores dos professores nos cursos de Educação, como alunos desses cursos na recepção passiva de ferramentas de trabalho comprovadamente erradas e ineficientes, como reprodutores acríticos do mau conhecimento adquirido. É, também, uma decorrência de suas reivindicações equivocadas, da busca de uma autonomia para fazer o que bem entendem que só é menor do que o desejo dos alunos de se comportarem do mesmo modo. É uma consequência de seus engajamentos, do desmonte que produziram na própria autoridade e dos líderes que vêm escolhendo para os representar.
 
Mas só aos professores, o senhor diz isso? Não, digo-o com muito maior ênfase a eles porque são, de fato, como informa a propaganda do MEC, os principais responsáveis pelo desenvolvimento social de qualquer nação. Enquanto os professores se submeterem às diretrizes de quem, com um tranco ideológico e partidário, os derruba à condição de meros trabalhadores em educação; enquanto se deixarem levar pelas cartilhas da pedagogia dominante; enquanto conviverem passivamente com a destruição de sua autoridade; enquanto tomarem como inegociável planos de carreira que nivelam competentes e incompetentes; e  enquanto não refugarem uma organização que transforma o acesso ao comando da Escola em concurso de coleguismo e simpatia, viverão uma crise sem fim.

Uma nova política de privatização da empresa e quem vai comandar são os empresários .

Direção da ECT anuncia criação de concessionárias
Uma política de privatização e favorecimento dos empresários “amigos” do governo
Em reunião com representantes dos trabalhadores diretoria da empresa se recusa a revelar proposta de novo estatuto com mudanças no funcionamento da empresa e anuncia criação de concessionárias

30 de janeiro de 2011
Na última terça-feira, dia 25, aconteceu uma reunião da direção da ECT – Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos com a direção da Fentect – Federação Nacional dos Trabalhadores dos Correios para recebimento de reivindicações dos trabalhadores, particularmente, o pedido de cópia do novo estatuto elaborado pela direção da empresa, prevendo mudanças no funcionamento da empresa de Correio, notícia veiculada pela imprensa capitalista.
Estiveram presentes na reunião a diretoria empossada pelo governo Dilma Roussef: o presidente da ECT, Wagner Pinheiro; o Diretor de Operações, José Eduardo Xavier, militar reformado; o diretor de administração, Nelson Luis Oliveira de Freitas; o diretor econômico-financeiro, Luis Mário Lepka, administrador de carreira do Banco Central. Também estiveram presentes o Diretor Comercial, José Furlan Filho, ex-diretor regional dos Correios em São Paulo; o Diretor de Gestão de Pessoas, Larry Manoel Medeiros de Almeida, ex-diretor regional do Correio no Rio Grande do Sul e o Diretor de Tecnologia e Infraestrutura, Antonio Luiz Fuchino, administrador de carreira do Banco do Brasil.
Estilo petista de administração
Na reunião o presidente da ECT informou que não poderia fornecer cópia da nova proposta de estatutos da ECT, uma vez que teria que consultar o departamento jurídico da empresa apesar da reiterada afirmação de que o mesmo já foi aprovado dentro da empresa e que, neste momento, tramita em esferas superiores do governo, para aprovação definitiva.
Apesar do discurso petista de que iriam governar junto com os trabalhadores, com transparência e participação dos movimentos sociais, o estatuto da ECT que irá alterar condições de trabalho mantidas durante mais de meio século foi alterado sem nenhuma discussão com a categoria, nem com os próprios cabos eleitorais do PT, que comandam boa parte dos sindicatos dos Correios, e por receio de iniciativas políticas e jurídicas por parte da categoria, tal documento é escondido e sequer oficializado para os trabalhadores.
A criação das chamadas subsidiárias ou concessionárias é uma política aberta de privatização da empresa e demissão da esmagadora maioria dos atuais 110 mil trabalhadores, trocando-os por trabalhadores terceirizados contratados por empresas privadas ou pela própria ECT, como ocorre na Petrobrás.
Uma política de privatização
Wagner Pinheiro adiantou que o novo estatuto permite à ECT criar empresas subsidiárias e participar como acionista minoritária em empresas privadas, repassando tanto para as subsidiárias, quanto para as empresas privadas parte da atividade fim da empresa e, obviamente, os recursos, alem de parte do mercado atualmente monopolizado pelo Estado. Um negócio da China para a iniciativa privada.
No caso da própria ECT fica permitido que cargos de direção e de chefia (os chamados cargos de gestão) possam ser ocupados por pessoas que não pertençam aos quadros da empresa, legalizando o cabide de empregos dentro dos Correios e a administração da estatal com base em interesses exteriores aos dos seus funcionários.
Não por acaso a nova direção empossada pelo governo conta com administradores que fizeram carreira no mercado financeiro. O próprio presidente da empresa tem sua trajetória vinculada ao chamado “grupo dos bancários de São Paulo”, os quais se notabilizaram pelas relações com os banqueiros através dos fundos de pensão e de negócios no governo petista, um dos expoentes desse grupo é o ministro Antonio Pallocci.
O atual presidente da ECT foi funcionário do Banespa e administrador da Petros, fundo de pensão dos petroleiros. Outros dois diretores são oriundos da administração do Banco Central e do Banco do Brasil. Evidente que a definição de pessoas do setor financeiro para gerir a ECT acompanha a política utilizada no setor financeiro de terceirização dos serviços em larguíssima escala, bem como cortes de direitos e rebaixamento salarial da ínfima parcela de funcionários que permanecerem efetivos e concursados.
O cinismo de sempre
Ao final da reunião, membros da Federação Nacional dos Trabalhadores do Correio, fizeram questionamentos sobre o pagamento da Participação nos Lucros e Resultados dos Trabalhadores, a PLR. Um dos diretores da empresa, sem nenhum constrangimento, declarou que se não houver acordo entre as partes na negociação da PLR, não haverá pagamento deste direito dos trabalhadores em 2011, “pois os trabalhadores precisam cumprir a lei que obriga o acordo entre as partes para pagamento da PLR”, uma declaração, no mínimo, de marciano, pois falar em cumprir a lei, por membro da direção da ECT é falar de corda em casa de enforcado.
Durante todo o ano de 2010 a direção da empresa foi garota propaganda de casos corrupção, desvio de dinheiro público, sucateamento de patrimônio público e diretorias derrubadas por favorecimento a empresas privadas e grupos políticos no governo.
Nem falar do escândalo “menor” envolvendo a administração da empresa no ano passado, por receberem PLR de mais de R$ 40 mil, enquanto os trabalhadores amargavam valores irrisórios.
Os planos do governo Dilma Rousseff para a ECT (que se estruturaram durante o governo Lula) são: terminar e legalizar a privatização da ECT, com a terceirização em larga escala e um ataque sem precedentes aos direitos dos trabalhadores.

Correios S.A. - um novo modelo de privatização da empresa

Privatização dos Correios
“Esta diretoria é fruto de um acordo dentro do governo para privatizar a empresa e tentar impor uma derrota aos trabalhadores”
Nessa semana a Fentect, Federação Nacional dos Trabalhadores do Correio, solicitou uma reunião com a nova diretoria da ECT, com o objetivo de apresentar oficialmente os novos diretores e discutir o novo Estatuto da empresa. Leia a entrevista com a companheira Anaí Caproni, membro da Coordenação da Corrente Ecetistas em Luta, que esteve presente na reunião

31 de janeiro de 2011
Causa Operária: Porque a Fentect solicitou uma reunião com a nova direção da ECT, realizada no último dia 25?

Anaí Caproni: Porque nos dias seguintes, à realização da reunião com a direção da ECT, aconteceria reunião do Conselho de sindicatos da Federação Nacional dos Trabalhadores do Correio, o chamado Consin, para, justamente, discutir a questão das mudanças do Estatuto da ECT, notícia que tem tido enorme repercussão nacionalmente. A reunião com a empresa foi uma tentativa de obter informações sobre o assunto, uma vez que é vedado aos trabalhadores o fornecimento de documentação legal e informações oficiais sobre o problema. As representações dos trabalhadores, inclusive a maioria daquelas que apóiam o governo, acabam tendo conhecimento das decisões pela Folha de São Paulo.

Causa Operária: Quem esteve presente na reunião?

Anaí Caproni: Toda a direção da Fentect, o presidente da ECT, Wagner Pinheiro; o Diretor de Operações, José Eduardo Xavier, um militar reformado; o diretor de administração, Nelson Luis Oliveira de Freitas; o diretor econômico-financeiro, Luis Mário Lepka, administrador de carreira do Banco Central; além do diretor comercial, José Furian Filho, ex-diretor regional dos Correios em São Paulo; o diretor de gestão de pessoas, Larry Manoel Medeiros de Almeida, ex-diretor regional dos Correios no Rio Grande do Sul; e o diretor de Tecnologia e Infraestrutura, Antonio Luiz Fuchino, administrador de carreira do Banco.
É importante notar que a composição da atual diretoria mostra que a política de ataque aos trabalhadores não só vai continuar, como se ampliou. Os dois diretores que são funcionários de carreira são conhecidos como “linha dura” no trato com a categoria, tanto em São Paulo como no Rio Grande do Sul. Os novos diretores que não são cargos de carreira do próprio Correio são egressos do setor bancário que não prima pela defesa dos interesses dos trabalhadores, pelo contrário, eles foram os precursores da implantação da terceirização dos serviços e do corte de direitos e benefícios dos trabalhadores, além da política de PDV´s para se livrarem dos trabalhadores mais antigos, contratando jovens com salários e benefícios infinitamente menores.

Causa Operária: O que foi discutido na reunião entre a direção da ECT e a direção da Fentect na última terça-feira?

Anaí Caproni: Basicamente foi uma apresentação oficial dos diretores da empresa, mostrando suas qualificações profissionais e seus objetivos, com a tradicional generalidade destas declarações, procurando evitar definições práticas do que efetivamente vão fazer. Na seqüência solicitaram que os membros da Fentect se apresentassem, naquele ritual básico dos manuais de gerenciamento corporativo de recursos humanos, para tentar comprometer os presentes com determinada “etiqueta” e envolvimento pessoal, situação que provoca certo constrangimento em dirigentes sindicais muito moderados ou limitados culturalmente para divergir ou se colocar de forma mais agressiva contra os frenquentes ataques da empresa nas negociações.
Depois das apresentações o presidente da empresa apresentou o que ele considera como pontos principais da atual proposta de novo estatuto da empresa que já está aprovada pela diretoria e foi enviada ao Ministério das Comunicações.
Os representantes dos trabalhadores solicitaram uma cópia da proposta de novo estatuto, a qual foi negada, com o surpreendente argumento de que os advogados precisariam ser consultados sobre a possibilidade de entrega do documento aos trabalhadores.
O próprio argumento mostra a hostilidade com que a direção da ECT encara os trabalhadores e como as mudanças, obviamente, serão contrárias à categoria. A consulta aos advogados se destina a proteger a empresa de eventuais medidas legais e políticas que a Fentect ou os sindicatos dos Correios em todo o país possam tomar para tentar impedir que o atual estatuto seja colocado em prática.
Sobre o próprio estatuto o presidente da ECT, Wagner Pinheiro, afirmou que uma das questões centrais é a possibilidade de que a ECT crie empresas subsidiárias ou participe como sócia em empresas privadas, inclusive na qualidade de sócia minoritária. Obviamente que esta participação será acompanhada da transferência de determinada parcela do monopólio postal para estas empresas ou para as subsidiárias criadas.
Trata-se de uma privatização dos serviços, sem quebra do monopólio e de uma terceirização em massa dos trabalhadores do Correio, obviamente, com enorme demissão de trabalhadores e cortes de direitos.

Causa Operária: Qual sua avaliação da reunião?

Anaí Caproni: A reunião foi curta, porém bastante esclarecedora. É bastante evidente que a nova direção dos Correios não é uma improvisação, como aconteceu nas gestões anteriores durante todo o mandato do governo Lula. Esta diretoria é fruto de um acordo dentro do governo para privatizar a empresa e tentar impor uma derrota aos trabalhadores.
A questão importante é que se bem haja uma estruturação do governo em torno desta política, o governo Dilma Rousseff é bem mais fraco que a administração Lula e as relações com o movimento sindical são infinitamente mais frágeis do que no governo anterior. Também é importante levar em consideração a onda de mobilizações que cresce em todo o mundo, fruto da crise econômica, da elevação da inflação e do descontrole das contas públicas depois da farra financeira dos últimos anos, onde os bancos e grandes empresários ganharam verdadeiras fortunas. No Brasil os efeitos desta política estão cada dia mais claros.
O governo Dilma Rousseff pretende impor uma política extremamente impopular num período de crescimento das mobilizações o que pode comprometer totalmente o sucesso da proposta de privatização da empresa.

Causa Operária: O Conselho de sindicatos da Fentect discutiu esta questão, da mudança dos estatutos?

Anaí Caproni: Sim, houve um intenso debate sobre o assunto. Todos os grupos políticos, inclusive aqueles que apóiam o governo (Articulação-PCdoB) não tem condições de negar que as mudanças pretendidas são um ataque aos trabalhadores. Estão extremamente acuados pelo desgaste político em suas bases, provocado pela política desesperada de assinar um acordo salarial com validade de dois anos [em 2009], para evitar greves durante as eleições [de 2010]. Boa parte destes sindicalistas foi afastada de seus cargos nas diretorias dos sindicatos em que atuavam, não conseguem falar em assembléias, enfrentam eleições com enormes rachas internos ou estão “na geladeira”, utilizando o jargão conhecido, esperando que a categoria esqueça o que aconteceu. No entanto, o governo do qual foram cabos eleitorais e pelo qual se desmoralizaram diante dos trabalhadores mal foi eleito e já têm que enfrentar um ataque destas dimensões e, o que é pior, sem ganhar absolutamente nada, uma vez que o atual governo não tem nenhuma política de contemporização com os sindicalistas, como acontecia com o governo Lula. Nem as Centrais Sindicais são recebidas pela atual presidenta.

Causa Operária: Quais foram as medidas de mobilização adotadas para lutar contra este ataque aos trabalhadores?

Anaí Caproni: Basicamente nenhuma, somente propostas gerais sem nenhum conteúdo efetivo: mobilizações nas bases, audiência pública, semana de mobilização em Brasília entre os dias 22 e 26 [de fevereiro] etc.
Na realidade eles procuraram evitar cuidadosamente aprovar a proposta do Bloco de Oposição, composto por sindicatos do PCO, sindicatos da esquerda do PT e do PSTU-PSol. O Bloco dos 17, como é conhecido, propôs a realização de um ato público dia 24 em frente ao prédio central dos Correios em Brasília com ocupação da empresa contra os novos estatutos, além da convocação de uma plenária nacional de ativistas da categoria em março para discutir a greve geral dos trabalhadores. Também foi proposto um calendário de mobilizações semanais com a realização de atos públicos nos estados e assembléias para organizar a mobilização nacional.
O Bloco dos 17 se reuniu durante o Conselho de Sindicatos e decidiu impulsionar a mobilização, contra a política de paralisar o movimento nacional, enquanto o governo impõe a privatização. Nas próximas semanas deve acontecer nova reunião para avaliação das decisões finais do Consin.

Causa Operária: Quais as conseqüências da política do bloco Articulação-PCdoB para tentar evitar a mobilização?

Anaí Caproni: Os principais diretores da Fentect ligados ao bloco Articulação-PCdoB, os quais impuseram, de forma ilegal, a aprovação do acordo bianual são totalmente repudiados pela categoria. Quem não foi afastado de seu cargo nos sindicatos, não pode falar em assembléias. O PCdoB foi o grupo mais atingido, enfrentando uma enorme divisão interna, uma vez que perderam postos nos sindicatos e, agora, também perderam boa parte dos privilégios no governo. É evidente a desagregação deste partido na base da categoria e na burocracia sindical.
O bloco Articulação-PCdoB não têm condições de dirigir e controlar qualquer mínima mobilização que aconteça contra os planos de privatização do novo governo. Por isso a política de evitar qualquer reunião de ativistas e atividades que não estejam presentes o seleto grupo da própria burocracia.
Está colocada de forma imediata a coordenação pelo Bloco dos 17 de uma iniciativa nacional contra o novo estatuto da ECT e pelas reivindicações dos trabalhadores.

O Mundo Árabe Desperta

 





Nota dos Editores

O Mundo Árabe Desperta

Os Editores
29.Jan.11 :: Editores

Primeiro foram os protestos em Argel contra a subida dos preços. Depois ocorreram as grandes manifestações da Tunísia, reprimidas com ferocidade pela ditadura de Zin Ben Ali.
O protesto evoluiu para rebelião nacional. Em Washington acreditou-se que a fuga de Ben Ali e a formação imediata de um governo transitório presidido pelo primeiro-ministro Ghanuchi «normalizaria» a situação. Mas isso não aconteceu. O povo manteve-se nas ruas exigindo o afastamento de todos os ex-ministros do ditador incluindo o primeiro-ministro e a punição dos elementos da engrenagem corrupta do Poder.
Na Casa Branca e no Pentágono a inquietação cedeu lugar a uma atmosfera de alarme quando os acontecimentos da Tunísia começaram a abalar o mundo árabe, do Atlântico ao Tigre e ao Golfo Pérsico.
No Cairo e depois em Suez e noutras cidades os egípcios decidiram também desafiar o poder despótico de um regime corrupto e vassalo. Hosni Mubarak respondeu com a repressão. Mas o povo não se intimidou e, em manifestações gigantescas, exigiu a renúncia do presidente e da sua camarilha. Isso no momento em que Mubarak, na presidência há três décadas, se preparava para designar como seu sucessor o filho Gamal.
Quase simultaneamente, em efeito de contágio dominó, os iemenitas tomaram as ruas em Sana, a capital, num movimento de protesto torrencial.
Em Marrocos, o rei, dócil instrumento dos EUA e da França, assustado, decide impedir a subida do preço dos alimentos e de bens essenciais, temendo pelo futuro da monarquia feudal.
Na Arábia Saudita o clima é de tensão. O mesmo ocorre no Sultanato de Oman e na Jordânia, um estado artificial criado pelos ingleses após a I Guerra Mundial.
Registe-se que todos esses países eram (ou são) oprimidos por regimes ditatoriais, tutelados por Washington, cujos governantes actuam como instrumentos da sua estratégia para o Médio Oriente e a África muçulmana.
OS EUA temem sobretudo o rumo imprevisível da situação criada no Egipto, um gigante com quase 80 milhões de habitantes, o país tampão entre a África e a Ásia que controla o Canal de Suez e tem uma fronteira explosiva com a Palestina (Gaza) e Israel.
Mubarak tem sido ao longo dos 30 anos do seu consulado o mais submisso dos aliados de Washington. Com excepção de Israel, é o maior recebedor da «ajuda» financeira norte-americana, 1.300 milhões de dólares por ano, grande parte investida na compra de armamento.
O Egipto foi o primeiro país árabe a estabelecer relações diplomáticas com o Estado sionista de Israel e sem a sua cumplicidade a estratégia de dominação imperialista na Região seria inviável.
É compreensível portanto o temor de Washington (e de Tel Aviv) nascido da rebelião em marcha dos povos árabes contra os regimes ditatoriais que suportam há décadas.
Como era de esperar, os analistas de serviço nos media portugueses acumulam disparates nos comentários aos acontecimentos da Tunísia e do Egipto.
Fazer previsões sobre o desfecho das rebeliões populares árabes que alarmam a Casa Branca e as burguesias europeias, suas aliadas seria uma imprudência.
Mas pode-se afirmar que a saída torrencial das massas às ruas em países aliás muito diferentes, exigindo o fim de regimes autocráticos e corruptos, configura uma derrota do imperialismo.
É significativo que El Baradei (um politico que goza da confiança do Departamento de Estado) tenha voado imediatamente para o Cairo, apresentando-se como alternativa a Mubarak. Cumprir ali a missão de bombeiro no incêndio social egípcio é o seu objectivo. Também na Tunísia, os EUA tudo farão para evitar a radicalização do processo.
Seja qual for o desenvolvimento das lutas populares em curso, a atitude de intelectuais que se apressaram a antever na rebelião tunisina o prólogo de um 25 de Abril árabe é romântica.
Não devemos esquecer o ensinamento de Lenine segundo o qual não há revolução social profunda vitoriosa, que dure, sem que a sua direcção seja assumida por um partido ou organização revolucionária. E tal partido não é identificável na rebelião árabe, marcada pelo espontaneismo.
O tsunami político que agita o mundo árabe deve porém ser saudado com firmeza e entusiasmo pelas forças progressistas em todo o mundo. As massas, assumindo-se como sujeito histórico, tomam as ruas. A rebelião pode desembocar em revoluções democráticas nacionais.
OS EDITORES DE ODIARIO.INFO

Os judeus do Brasil na época de Nassau

O paraíso religioso holandês
A liberdade dos judeus no Brasil de Nassau
Fonte: Pesquisa FAPESP
Carlos Haag
Edição Impressa 179 - Janeiro 2011
© reproduções do livro O Brasil e Os Holandeses / 1630-1654
Rua dos Judeus, em Recife

Com um pragmatismo superado apenas pela argúcia, o Padre Vieira afirmava sobre os judeus, lançando mão de um argumento emprestado de Santo Agostinho: “O esterco fora do seu lugar suja a casa, e posto no seu lugar fertiliza o campo. O mesmo vale para os judeus, que no estrangeiro ajudam os hereges, mas em casa fornecem o capital para manter o Império. Por que transformar vassalos úteis em inimigos poderosos?”. O mesmo senso prático se estabeleceu no Brasil durante a dominação comercial e militar dos holandeses, entre 1630 e 1644, em Pernambuco, onde reinou um ambiente inédito de tolerância religiosa, em especial para judeus. “A capital pernambucana era uma verdadeira ‘Jerusalém colonial’ por causa da utopia da reconstrução do mundo judaico da diáspora. Era uma Babel cultural. Recife, por certo tempo, foi a única cidade do mundo que reunia pessoas das três crenças (judeus sefarditas, católicos e calvinistas) em um único ambiente de tolerância religiosa”, afirma o historiador Ronaldo Vainfas, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) e autor de Jerusalém colonial: judeus portugueses no Brasil holandês (Civilização Brasileira), pesquisa apoiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj). “Nunca antes os judeus alcançaram tamanha liberdade religiosa como no Brasil holandês, em especial durante o governo de Maurício de Nassau”, analisa.
No caso dos judeus, havia, como pregava Vieira, razões concretas para a boa vontade batava. “Os holandeses do governo colonial ou representantes da Companhia das Índias Ocidentais (WIC) apoiavam enfaticamente os judeus porque eles eram os intermediários por excelência dos negócios coloniais”, observa Vainfas. “O ‘tolerantismo’ ou o Estado multirreligioso era visto por muitos governos da época como o caminho mais curto para a deslealdade e para a dissidência interna. Não foi fácil para Nassau implantar essa política, tendo que lutar constantemente contra a ira da maior parte do clero calvinista local e contra pressões de uma política menos tolerante na colônia, exigida pelos diretores da WIC”, afirma o historiador americano Stuart B. Schwartz, professor da Universidade Yale e autor de Cada um na sua lei (Companhia das Letras). “Esse período oferece uma oportunidade limitada de imaginar as possibilidades de tolerância que existiriam na sociedade portuguesa com a redução do poder e da autoridade da Igreja e, acima de tudo, da Inquisição.” Afinal, era a primeira vez que os judeus puderam se reorganizar depois de mais de um século de proibição do judaísmo em Portugal. O processo remonta a 1478, quando os reis católicos instituíram a Inquisição na Espanha, o que levou os conversos, vistos como hereges por se “judaizarem” em sigilo, a fugir para o reino vizinho. O grande afluxo de judeus espanhóis levou a nobreza e a Igreja de Portugal a clamarem por medidas equivalentes à espanhola e, em 1496, o rei português, que nada tinha contra seus súditos hebreus, decretou que todos os semitas deveriam se converter ao catolicismo, o que fez nascer a comunidade dos cristãos-novos. Em 1536, quando a Inquisição chegou a Lisboa, mais uma vez os sefarditas iniciaram uma diáspora, dessa vez em direção aos Países Baixos. Amsterdã passou a ser conhecida como a “Jerusalém do Norte”.
Rituais – “Os imigrantes estavam separados por mais de 100 anos do ju­daísmo dos avós, não sabiam hebraico e só praticavam certos rituais domésticos. Não conheciam nada ou pouco do judaísmo. Para a maioria dos convertidos, a primeira comunidade judia que conheceram foi essa que criaram. Eram ‘judeus novos’ que, no fundo, eram cristãos por formação”, explica Vainfas. O português era a língua falada por eles, conhecidos por isso pelos holandeses como “gente da nação portuguesa”, apelando para o castelhano nas orações e cerimônias das sinagogas. Aos poucos foram ampliando seus direitos, embora fossem uma minoria que se restringia a um gueto em Amsterdã. “Quando os holandeses se instalaram no Brasil, os judeus vieram para o país, a partir de 1635. Essa proteção aos judeus não foi uma decisão de Nassau, mas uma política da WIC”, nota o pesquisador. “A Companhia não tinha fundos para financiar suas operações e foram obrigados a encorajar a migração de judeus portugueses, que se transformaram em operadores e intermediários, fornecendo dinheiro, crédito e os suprimentos necessários para colocar a região de produção de açúcar novamente em funcionamento”, afirma o historiador americano Jonathan Israel, professor do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de Princeton, autor de The expansion of tolerance: religion in dutch Brazil.
“Eram os únicos que falavam português e holandês, o que lhes permitia dominar o comércio da colônia, vantagem combinada a um conhecimento profundo da indústria açucareira. E, ao contrário de Amsterdã, onde só podiam morar, em Pernambuco eram livres para ter lojas e tocar negócios em geral”, diz o americano. “Essa tolerância, porém, não era gratuita, mas fruto da necessidade. A maioria das plantações de açúcar em Recife tinha sido destruí­da na conquista e não havia dinheiro da WIC capaz de restaurar a economia. Foi um caso especial, que não se repetiu em outras regiões dominadas pelos holandeses, como o Caribe ou a Nova Amsterdã”, ressalta Israel. “Eles foram os grandes cobradores de impostos do Brasil holandês. Emprestaram dinheiro a juros para senhores de engenho holandeses ou luso-brasileiros e para cristãos-novos menos afortunados. Até para a WIC os grandes comerciantes judeus emprestaram dinheiro. Foram igualmente distribuidores de escravos”, conta Vainfas. Com o financeiro resolvido, houve espaço para a fé. A congregação Kahal Kadosh Zur Israel foi a primeira fundada nas Américas. “Era algo inimaginável numa colônia portuguesa católica e Nassau sofreu grandes pressões por parte dos pastores calvinistas”, diz o professor da UFF. “Embora o governo holandês protegesse os judeus, os predicantes calvinistas se revelaram mais intolerantes aqui, porque a visibilidade do judaísmo era maior e os privilégios desfrutados pelos judeus eram imensos. Os pequenos e médios comerciantes holandeses odiavam os judeus porque perderam espaço e viram frustradas suas expectativas de enriquecer na colônia. Os calvinistas também nisso esposaram a causa dos negociantes holandeses”, continua Vainfas. Nassau, no entanto, gostava de lembrar aos diretores da WIC que os judeus, ao contrário dos católicos, eram aliados fiéis. A comunidade teve desdobramentos.
Liberdade – “A presença de judeus confessos provocou tensões e sentimentos diversos nos cristãos-novos daqui. Vários dentre esses aproveitaram a relativa liberdade religiosa para se tornarem abertamente judeus”, analisa o historiador Bruno Feitler, professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e autor do livro Nas malhas da consciência (Alameda). “Mas muitos cristãos-novos que passaram pelo processo de ‘retorno’ não tinham nenhum conhecimento ou prática da religião ou dos costumes judaicos”, observa. “Causava um grande desconforto aos católicos acompanhar a adesão diária de cristãos-novos à sinagoga, homens e mulheres que antes se diziam cristãos e frequentavam missas. A disposição de muitos cristãos-novos de ‘regressar’ ao judaísmo parecia confirmar o alerta da Inquisição contra o perigo da ‘heresia’ judaica que corria no sangue dos cristãos-novos”, avalia Vainfas. Na luta da restauração portuguesa, os lusitanos também se voltaram para os judeus, aconselhados por Padre Vieira, um curioso conflito de interesses. “No caso de Portugal, o dinheiro judaico foi essencial para a vitória sobre a Espanha. No caso holandês, era importantíssimo nos investimentos da WIC. Os judeus da Holanda investiram nos dois lados da contenda. O desempenho das redes mercantis sefarditas exprimiu a lógica de um capitalismo comercial avançado, capaz de operar entre sistemas monopolistas rivais, colocando em segundo plano razões de ordem política e religiosa”, lembra o pesquisador. Apoiar Portugal era investir na chance de os lusos retomarem o Brasil dos holandeses, responsáveis pela liberdade experimentada pelos judeus. Quando esses foram expulsos, a maioria dos sefarditas deixou o Brasil e foi para lugares controlados pela WIC, o que lhes permitiu superar a experiência pernambucana.
“Alguns foram para a América, mas é um mito que tenham fundado Nova York. Os holandeses de Manhattan temiam que os judeus repetissem por lá o que haviam feito no Brasil: tomar conta do comércio. Isso não ocorreu, porque o português não tinha utilidade na Nova Amsterdã”, diz Vainfas. “Um estudo da cultura brasileira mostra o legado deixado por aqui pelos cristãos-novos, com suas ideias de tolerância e liberdade, com sua defesa de que ‘cada um deve ter a liberdade de adorar Deus conforme sua consciência’. Eles podem, pela sua crítica à Igreja, aos dogmas e ao fanatismo, ser considerados os precursores da ilustração brasileira. Os judeus entraram intimamente na composição étnica do nosso povo, fato decisivo para a formação de nossa mentalidade e para a heterodoxia dos brasileiros”, afirma a historiadora Anita Novinsky, professora da Universidade de São Paulo, autora do livro Cristãos-Novos na Bahia (Perspectiva).